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terça-feira, outubro 20

Conto – Obrigado

 




Boa tarde, como estão os vossos corações?
A chuva cai lá fora, fina e abundante. 😉
Eu gosto da chuva, acalma o meu coração.

Conto – Obrigado


    Desespero, dor, medo. Sentia um turbilhão de sentimentos, mas alguns destacavam-se. As suas mãos sujas de terra e sangue tremiam, o seu corpo dolorido ansiava pelo descanso e a sensação acolhedora de algumas horas atrás... 
     Porque tinha abandonado os seus amigos na biblioteca?
    Pedro sabia a resposta, a mensagem assustadora que recebera o tinha sobressaltado de tal maneira que receou pela segurança deles. Só aquele pensamento lhe tinha passado pelo coração, e o medo. Medo de perder a sua amizade, medo de os envolver nos seus problemas, medo de que o culpassem de algo que pudesse acontecer se não os tivesse deixado…
      Escondido atrás de um contentor do lixo, Pedro vigiava os seus perseguidores que o procuravam nas redondezas. Ouvia-os gritar e amaldiçoar. Se o encontrassem, teria problemas maiores do que aquela queda desastrada e os pontapés nas pernas e no estomago.
    Provavelmente, assim que acordasse na manha seguinte teria nodoas negras pelo corpo e dores musculares. Mas nada disto importava, logo que conseguisse chegar a casa em segurança e deixar os amigos bem, longe de todo aquele pesadelo.
    Perguntava-se o que teria feito de mal para estar a ser ameaçado, caluniado, agredido e provocado daquela maneira, onde não tinha paz em nenhum momento. Sempre fora um rapaz alegre, brincalhão e extrovertido, pronto para qualquer brincadeira ou confusão. Pedro nunca os tinha visto antes de tudo começar, nem sequer sabia a que ano pertenciam… O que lhe restava era fugir e esconder-se.
    A sua irmã mais velha era a pessoa mais amorosa que conhecia. Filho de advogados, Pedro pouca confiança tinha com eles, raramente estavam em casa e quando estavam, era como se ele e a sua irmã fossem invisíveis. Pedro conhecia o amor materno através da sua irmã, sete anos mais velha do que ele, que o criara desde sempre.
    Havia-lhe contado tudo, não guardava segredos da sua irmã. Naquele dia, pela primeira vez na sua vida a tinha visto chorar. Tinha conseguido acalma-la ao contar-lhe uma mentira inocente, que agora não se mostrava inofensiva, pois não tinha pedido ajuda aos professores por vergonha e nem aos seus amigos por medo. Mas não se arrependia, não ao ponto de se esconjurar.
    Enquanto os seus amigos estivessem seguros, ele estaria bem.
    - Encontrem-no de uma vez por todas! – ouviu gritar. – Quando o apanhar ele vai arrepender-se de ter fugido!
    - Ele não está em lado nenhum! – exclamou o louro. – Ele é bom em fugir!
    - Maldito! – maldiçoou o moreno, com os punhos fechados. – Eu vou mata-lo!
    - Ele tem de estar em algum lugar! Procurem-no em cada canto, sei que ele está por perto – disse o gordo. – Se estás a ouvir-nos, é melhor aparecer! Vai ser muito pior quando te encontrar, seu esquelético de merda!
    Pedro fechou os olhos e orou por ajuda. Não acreditava em um Deus, mas se realmente existisse, que o ajudasse, pois sabia que não seria como nas outras vezes. Desta vez, sairia muito mal. E ao abrir os olhos começou a chorar, um dos rapazes segurava uma navalha e brincava com ela como se pudesse apunhalar o ar.
    A agonia apoderou-se da sua mente e do seu corpo, e quando sentiu uma mão no ombro esquerdo, deixou-se cair no chão. Curvado numa concha chorava em silêncio, pois sabia que quanto mais alto chorasse mais lhe bateriam, mas uma voz familiar chamou-o, alertando-o para a realidade e para longe daquele cubículo.
    - Pedro, estás a ouvir-me? Vamos sair daqui!
    Olhou em direção da voz e engoliu em seco. Os seus três amigos estavam ali com olhares inquietos. Atrás do contentor, tentavam ajuda-lo a levantar-se.
    - Pedro, seu idiota, vamos sair daqui, antes que eles nos encontrem! – disse o André, na sua irritação habitual. – Acredita, se nos encontrarem, eu vou matar-te!
    - Anda! Vamos sair deste lugar! Cheira mal… – disse o João, com um sorriso. – Vai ficar tudo bem, Pedro, nós estamos aqui!
    Pedro olhou nos olhos de cada um dos seus amigos e depois desviou o olhar em direção daqueles que ainda o procuravam. Perguntou-se como é que os seus amigos o tinham encontrado, se sabiam o que estava a acontecer com ele, mas decidiu não perder mais tempo: olhou para os amigos e pegou a mão que lhe era estendida.
    Com dificuldade levantou-se e mostrou um sorriso pequeno como agradecimento. Juntos, correram o mais rápido que puderam e por fim conseguiram despista-los.
    - Porra! Nunca corri tanto na minha vida! Nem acredito que isto é culpa tua, Pedro! – gritou o André. – Se não tivesses deixado a biblioteca, nada disto teria acontecido, seu idiota!
    - Eu… Eu apenas…
    - O quê? Para lá com isso! Não vês que estás a piorar as coisas! Procuramos-te por muito tempo!
    Pedro olhou para o amigo chocado.
    - Se não nos contares, não saberemos como te ajudar – disse o Rui, sorrindo para o amigo. – Somos teus amigos e é para estes momentos que nós servimos. Não podes resolver tudo sozinho.
    - O Rui tem razão – disse o João. – Nós estamos aqui para te ajudar!
    Pedro olhou para cada um dos amigos e depois sorriu.
    - Obrigado – disse, ao abraça-los afetuosamente.

FIM…
(Borboleta Voadora, Portugal, 20-10-2020) 



Um abraço e até à próxima.



Borboleta Voadora
😊😊😊

segunda-feira, outubro 5

Conto – Avaliação




Então, estão a gostar da chuva? ☂☔
Eu entendo se não estiverem, mas tudo é preciso, e tal como a natureza, nós também precisamos da chuva. Nestes dias, provavelmente, devem sentir-se desmotivados e sem forças para continuar, mas acreditem, estes dias também são importantes. Pessoalmente, é nestes dias que paro para pensar sobre tudo o que esta a acontecer na minha vida. 😊 E sabem qual foi a conclusão a que eu cheguei?
Sim, preciso de mudar algumas coisas, aquelas que não estão a correr bem…
Vamos caminhar um dia de cada vez, e fazer as mudanças necessárias.


Conto – Avaliação


Naquele momento, Carlos tremia e suava frio. Sentia-se sempre assim quando tinha alguma avaliação ou quando iria receber alguma. Gostava de estudar, mas só aquilo que realmente queria aprender, e quando era algo que não chamava a sua atenção, estudar tornava-se uma tortura. Queria que fosse diferente, mas não conseguia.
Para o seu irmão gémeo, Armando, o estudo era como saltar num trampolim, fácil e sem problemas. Tinha sempre as melhores notas, era o delegado de turma. Costumavam dizer que eles eram como a água e o azeite, apesar de serem fisicamente iguais.
Carlos tinha sempre notas baixas, o oposto do seu irmão.
- Desta vez, não correu mal – disse o professor de história à turma –, mas podia ter corrido melhor.
O professor de história era um homem alto e barrigudo. Possuía óculos quadrados e cabelos longos, presos por um elástico. Costumava usar umas calças de bombazine com suspensórios, mas naquele dia as calças de ganga apertadas dava a sensação de que a qualquer momento iriam arrebentar.
- Talvez tenha um encontro – cochichou o Armando, depois de reparar na aparência diferente do professor. – Ele é solteiro, não é?
- Sim, acho que sim.
Carlos levantou o olhar e reparou que o professor distribuía os testes e fazia os seus habituais comentários, talvez numa tentativa de incentivar melhores resultados.
- Se tiver mais uma nega, o pai vai tirar-me a playstation… Que saco! Eu não tenho culpa de não gostar de história! É uma seca!
- Também não gosto, mas faço um esforço – disse o Armando. – Como é que te correu o teste? Foi assim tão mau?
- Pessimamente! Não consegui lembrar-me das datas nem do nome daquele rei esquisito. Eu simplesmente não consigo!
- Tem calma, eu convenço o pai a não tirar-te a playstation – disse o Armando, a sorrir. – Podemos jogar assim que chegarmos a casa, antes do pai chegar do trabalho!
- O quê!? Isso é uma despedida antes de ficar sem ela?
- Claro que não!
Em pouco tempo o professor de história aproximou-se da mesa dos gémeos. Primeiro olhou para um e depois para o outro, talvez numa tentativa de distingui-los. Suspirou derrotado, e começou a falar para os dois:
- Armando, pouco tenho a acrescentar, a tua nota foi excelente. Cometeste um erro ou dois, mas é satisfatório – disse o professor, com orgulho. – Carlos, desta vez superaste-te, até fiquei admirado, mas não foi o suficiente. Tens de estudar mais para alcançares o teu irmão. Ou pelo menos, para a positiva.
O professor entregou os testes e retornou à sua secretária. Carlos já esperava a sua nota negativa, mas não pode deixar de pensar que esteve tão perto da positiva.
- Mais um excelente para a coleção, não é Armando? – comentou o Rodrigo, da mesa ao lado. – Que sorte!
- Não, não tive excelente. Desta vez, a matéria era difícil. Não é, Carlos?
- Sim…
Carlos suspirou e guardou o teste na capa. Ele sabia que seria sempre aquele que teria de estudar muito para obter resultados, enquanto o seu irmão estudaria apenas para passar o tempo.
«Não tenho sorte nenhuma, que saco!», pensou com tristeza.
- Então, Carlos, não fiques assim – disse-lhe a Ana, ao virar-se para trás. – De certeza que o professor vai fazer recuperação. Eu ajudo-te a estudar!
- E a mim, não ajudas? – perguntou o Armando, na brincadeira.
- Precisas de ajuda? – questionou a Ana, ao colocar a mão direita sobre o coração, numa tentativa frustrada de se mostrar surpreendida. – Tudo bem, eu posso falar com a Filipa, talvez ela queira ajudar-te…
- Não, obrigada, não preciso de ajuda! – exclamou o Armando, atropelando as palavras com o nervosismo. – Eu realmente não preciso!
Carlos abafou o riso e depois empiscou a Ana, que também fazia um enorme esforço para não desatar a rir às gargalhadas.
- Ana, eu preciso, ajudas-me?
- Sempre, Carlos!


FIM…
(Borboleta Voadora, Portugal, 05-10-2020)



Um abraço e até à próxima.


Borboleta Voadora
😉😉😉

terça-feira, fevereiro 4

Conto – Por Dentro e Fora



Conto – Por Dentro e Fora

O calor entrava lentamente pela janela, despertando-a. Aquela brisa quente deixava-a sonolenta, mas o desejo de acordar e viver era mais forte. Em breves momentos, pensou em sair e aproveitar a magnifica manhã, no entanto, entristeceu. O cheio enjoativo a medicamentos trouxe-a de volta à realidade.
- Já está acordada?
Desejou que a realidade fosse um sonho e o sonho fosse a realidade. Abriu os olhos e fixou a enfermeira que sorria com ternura.
- A janela já esta aberta.
Olhou por breves momentos pela janela, contemplando tudo o que não podia sentir igual aos outros.
- Esta tudo bem? – ouviu a enfermeira perguntar, possivelmente por causa do seu olhar cansado, pensou ela.
Fechou os olhos e recostou-se na almofada. Não conseguia compreender o sentimento sombrio que se fazia sentir. Desejava estar sozinha, chorar, mas ao mesmo tempo temia a solidão.
- Sente-se bem? Vou chamar o médico!
- Não é preciso – declarou, agarrando a enfermeira pelo braço. – Eu estou bem.
- Tem a certeza?
Respirou fundo e abriu os olhos.
- Sairei daqui e não voltarei a olhar estas paredes. Meu futuro espera-me para lá daquela janela.
O olhar surpreso da enfermeira foi como um aconchego para a sua firme decisão. Pensara muitas vezes desistir, perder a luta contra a doença que a consumia de dentro para fora, mas sabia que estava na altura de declarar guerra e viver.
- O meu futuro é dentro destas paredes, mas, sim, o seu é para lá delas. Venceremos cada uma no seu lugar de escolha.
Sorriu, confirmando as suas novas seguranças. Lutaria e viveria com uma nova força e determinação.


FIM…
(Borboleta Voadora, Portugal, 04-02-2020)



Um abraço e até à próxima.


Borboleta Voadora
😊😊😊

quarta-feira, outubro 31

Conto – Alguém…




Desejo a todos um ótimo e sombrio Halloween!
🎃🎃🎃


Conto – Alguém…

Não fazia sentido. Porquê? Eu seria assim tão insignificante?
Viver, era tudo o que eu queria, mas naquele olhar enraivecido, sedento de sangue, incompreensível, sabia o que me esperava.
Injetava-me pela alma, agonizando as minhas forças, as minhas hipóteses de fuga.
O seu olhar vampírico, frio, gélido, fazia-me recordar dos momentos felizes e de ternura que havíamos tido e que agora pareciam ter-se desvanecido em fumo, numa imagem abstrata da minha imaginação. Tudo mentira?
Não, eramos felizes, havíamos sido, certa disso estava eu, mas agora nada disso importava. Os carinhos, as conversas íntimas, os sorrisos, os olhares doces, tudo tinha chegado ao fim…
O seu olhar preenchia-me por uma culpa sem razão. Razão? Não existe, nem lá, nem aqui, nem neste momento. Ele não acreditava em mim e eu, não confiava mais nele.
A confiança mútua de outrora evaporara, extinguira-se naquele olhar que censurava a minha fidelidade, o meu amor, o meu futuro…, e a faca que segurava com firmeza mostrava-me um destino roubado por uma mentira instantânea.
Falar? Suplicar? Não havia mais espaço para isso…
Naquele olhar não existia civilização, compreensão. Alguém, não importa quem… Alguém que me salve!
Eu… Eu quero viver…


FIM…
(Borboleta Voadora, Portugal, 30-10-2018)



Um abraço e até à próxima.


Borboleta Voadora
😊😊😊

segunda-feira, outubro 8

Conto – Um Sopro no Parque




Vamos a mais um conto?
Espero que gostem…
😉😉😉


Conto – Um Sopro no Parque

Tudo parou no tempo. Os pássaros, as árvores, as flores, o vento. Tudo parou, sem razão aparente. Olho o relógio do parque, lá no seu alto. Estranho… Os segundos contados pelo longo ponteiro negro seguem o seu rumo aos minutos, e os minutos às horas. Enlouqueci? Ou estarei a sonhar?
Ao longe, ouve-se duas vozes distintas que se interligam numa conversa incompreensível. O que dizem uma à outra?
Levemente, ouço o vento a assobiar numa melodia que só ele é capaz de entender, mas… tudo contínua quieto. A água pura que outrora se ouvia já não borbulha na fonte, o cheiro doce das flores espalhadas pelo manto verde negam-se a deliciar-me com o seu aroma memoriável, as vozes entusiasmadas das crianças a brincar não se ouvem mais…
Será que o vazio se apoderou de mim? Terá chegado a hora?
As duas vozes continuam a ouvir-se, mas… do que falam? Das suas culpas? Dos seus medos? Das suas histórias? Fecho os olhos e ouço, ouço com o coração aberto. A preocupação recusa-se a deixa-la, apodera-se da sua essência como um parasita, sugando gota a gota do seu vigor. A outra voz, leve e fina, corajosamente tenta encoraja-la a persistir, a não desistir de algo…
Os seres humanos são muito interessantes! Vivem, sobrevivem e morrem, não são muito diferentes de mim, mas têm algo que os torna diferentes, especiais. Mas o que será?
O vento… já não consigo ouvi-lo mais, mas o aroma adocicado das flores e as vozes alegres das crianças, por fim, deixam-se ouvir… Ah, já entendi. A água também decidiu despedir-se de mim…
Todos os dias nascem e desaparecem vidas. Também houve o dia em que eu nasci, no seio de uma família numerosa. Hoje, sozinho e velho, deixo de existir.
As duas vozes, afetuosamente, choram e compreendem-se, e eu, escondido por entre estes arbustos vigorosos vejo a verdadeira, a única razão dos seres humanos serem tão especiais. Sim, são, mas à sua maneira.
Sorrio. A luz decide, por fim, apagar-se, vagarosamente. Não há arrependimentos nem tristezas. Fiz o que quis, fiz o que pude por aquela família que deixo sem experimentarem a dor da minha partida. Vou, lentamente, sem culpas…
A voz grossa altera-se, aflige-se na sua alma. Chama pelo meu nome… Chora… Aperta-me… Oh, sim! Familiar, quente, aconchegante, um homem crescido, com um bom coração… Sou-te grato, meu menino pequeno e chorão! A minha alma queima por dentro. Não, não chores! Eu fui feliz, muito feliz!
A vida que me deste foi a melhor que podias dar: as brincadeiras, os mimos, as guloseimas, a companhia, a compreensão, o teu sorriso alegre e às vezes triste…
Sim! Sem remorsos, sem tristezas. Sorri, sorri por mim…
Deixa estar, eu faço isso por ti.

FIM…
(Borboleta Voadora, Portugal, 08-10-2018)



Um abraço e até à próxima.


Borboleta Voadora
😊😊😊

domingo, setembro 30

Conto – A Noiva




Vamos a um novo conto? Gostas de casamentos? Eu gosto, mas serão todos alegres?
😔😔😉😁


Conto – A Noiva

Quando a música matrimonial iniciou, centrado naquele propósito familiar, as vozes silenciaram-se, como se soubessem da dor que a noiva carregava. Jamais havia conhecido o noivo… Era inevitável aquele silêncio absurdo e à medida que a noiva arrastava o longo véu branco, mais esse silencio se fazia ouvir.
O pai da noiva, saciado das suas ambições, entregou a sua filha a um desconhecido e a mãe, reservada a um canto, chorava de emoção. Ninguém pensava na noiva, na sua dor, nos seus desejos mais íntimos. Tudo tinha um propósito, tudo tinha de se cumprir.
E durante a festa, alegres com a música e com a comida abundante, risos desnecessários apagavam a existência da noiva. Estaria ali, ao lado daquele homem que agora dizia ser o seu marido?
O odor do assado e do chili inundava a divisão, e o fumo intoxicante dos vários cachimbos sobressaltavam-se. A frieza daquele sucedimento impaciente havia dissipado o calor abrasador que fazia lá fora. O vento sussurrava nas janelas, mas ninguém ouvia.
Nas profundezas da escuridão, as lágrimas jovens caiam, preocupadas com aquele futuro precipitado. Ninguém ouvia, ninguém queria ouvir… Noiva, vestida de branco, o que será de ti? Os meus olhos não te podem ver, mas compreendem-te na perfeição.


FIM…
(Borboleta Voadora, Portugal, 30-09-2018)



Um abraço e até à próxima.


Borboleta Voadora
😊😊😊

domingo, maio 13

Conto - A Lenda do Duende Ladrão




O primeiro conto do blog.
Espero que gostem...
Deixem as vossas opiniões nos comentários.
😊😊😊


A Lenda do Duende Ladrão



Não havia, naquela aldeia, quem não conhecesse e temesse a lenda do duende ladrão, que contava que no silêncio mais bravio da noite os duendes saiam da sua aldeia escondida na floresta e entravam nas casas para roubar.
Para protegerem as suas coisas, os aldeões trancavam tudo, portas, janelas, chaminés, todos os lugares possíveis que os duendes podiam usar para entrar. E nas noites de lua cheia, nem dormiam, pois segundo a lenda os duendes seriam mais agressivos e traiçoeiros.
Numa noite destas, três velhos amigos decidiram pernoitar na casa do mais novo para festejarem o seu aniversário e à mesa nada faltou; havia bolo, bolachas, salgadinhos, vinho e cerveja. Pouco estavam preocupados com os duendes, pois à conta da lenda sabiam que eles detestavam barulho.
O que eles não sabiam era que um dos duendes gostava exatamente do oposto e que no momento em que a conversa deles chegara a meio, este entrara pela janela deixada aberta e escondera-se debaixo da mesa.
- Foi mesmo engraçado – comentou o do meio, entre gargalhadas. – O amigo fez muito bem impedi-lo!
- Eu não fiz nada de mais… – disse o mais velho, ao beber um gole do seu copo de vinho. – Ele não devia ter exaltado o nosso amigo daquela maneira. Todos sabemos que é bastante agressivo quando algo não lhe corre bem…
- Isso já passou – disse o mais novo, sacudindo a mão de trás para a frente. – Isso agora não importa mais! Não sou homem de me importar com algo que já passou.
- Lá nisso… – murmurou o do meio, bebendo o que lhe restava da sua cerveja.
- Mais uma? – perguntou o mais novo, inclinando-se para lhe entregar uma outra garrafa. – Ainda está fresca!
- Não, obrigada. Prometi há minha mulher que não chegava a casa a dançar e a cantarolar esta noite.
- Que tolice – resmungou. – Estamos a festejar…
- Sabem uma coisa – começou o mais velho, bebendo mais um gole do seu copo de vinho. – Noutro dia encontrei uma nota de cinquenta euros no chão e depois de pensar um pouco no que devia fazer com ela, devolvi-a ao dono.
- Que disparate! – comentou o mais novo, que já ia no seu décimo copo cheio. – Eu, se a tivesse encontrado, tê-la-ia gastado.
- Pois então fiz mal? – perguntou.
- Com certeza – respondeu prontamente, ao encher o seu décimo primeiro copo. – Eu tê-la-ia gastado em vinho bom que nem este!
- Isso está errado – afirmou o do meio. – Isso é ser desonesto. É um roubo!
Surpreendidos, os dois amigos olharam-no.
- Aqui, os únicos ladrões são os duendes! – exclamou o mais novo, ofendido. – São eles que entram nas nossas casas e vasculham as nossas coisas… Eu nunca fiz uma coisa dessas! Achado não é roubado!
- Talvez tenha razão… – murmurou o mais velho, pensativo. – Se calhar, não lhe teriam feito assim tanta falta!
- Está enganado! – insistiu o do meio, com uma expressão séria no rosto. – De certeza que ajudou quem o perdeu.
- Que disparate! – exclamou o mais novo, cada vez mais exaltado. – A filha do nosso amigo faria melhor farinha dele! Para sustentar aquele preguiçoso…
Ao fixar o amigo, o do meio perguntou:
- E se fosse uma nota deixada pelos duendes? Eles voltariam por ela… São gananciosos e o amigo acabaria por ser amaldiçoado por eles.
Os dois amigos olharam-se.
- Não era – afirmou o mais velho. – A nota pertencia aos velhotes que moram no fim da aldeia!
- Estás a ver, estás a exagerar! – comentou o mais novo, arrotando logo de seguida. – Os duendes não são assim tão desleixados!
- Pois é! O amigo não devia ser tão certinho. O casal, de certeza, nem precisava dele – disse o mais velho, bebendo o seu vinho.
O velhote do meio respirou fundo e depois perguntou ao mais novo:
- Então, se encontrasse uma nota de cinquenta euros no chão, gastá-la-ia? Não hesitaria em gastar um dinheiro que não lhe pertencia? O amigo não devia ser tão avarento. Isso, tal como disse ainda há pouco, é ser desonesto!
- Claro que não – respondeu, dando uma gargalhada. – E eu não sou avarento!
O mais novo voltou a encher o seu copo e bebeu de uma só vez. O mais velho fez o mesmo logo de seguida. O do meio olhou-os, admirado.
- A minha neta já nasceu – disse o mais novo, a certa altura. – Possui lindos cabelos de ouro e duas safiras azuis no lugar dos olhos. É lindíssima!
- Sim, é mesmo linda – comentou o mais velho. – Fui vê-la na semana passada, quando nasceu. É tal e qual um dia de sol…
- Eu também fui vê-la quando nasceu. Sim, é muito bonita, meus parabéns! É igualzinha à mãe…
- Nada disso! – exaltou-se. – A minha neta é a cara do pai!
E assim passaram a noite, na conversa e a beber, enquanto o duende, atento a cada palavra dita, decidiu dar uma lição ao mais novo. Os duendes roubavam, mas tinham uma boa razão para os seus ditos crimes: todos os anos, naquela época fria, sofriam com uma grande escassez de alimento, algo que precisavam para sobreviver, e qualquer outra coisa desaparecida na aldeia não tinha mão de duende. Eram ladrões honestos e orgulhavam-se de o ser, e determinado a ensinar-lhe a ser também honesto, arquitetou um plano.
Numa noite, o mais novo dos três amigos pagou bebidas a todos os homens da aldeia. Não houve quem não estranhasse tamanha simpatia e aquela quantidade exagerada de dinheiro, o que fez com que a certa altura, o mais velho lhe perguntasse, por curiosidade, onde arranjara tanto dinheiro e a sua resposta foi tão chocante que nem o do meio teve a coragem de dizer fosse o que fosse:
- Não me olhem assim, eu não o apanhei do chão. Eu não o roubei! A minha nora deixou-me uma nota de cem euros no berço da Maria, quando foi à feira. Ninguém o perdeu, simplesmente deram-mo! A minha nora é tão generosa…
- Mesmo! – exclamou o mais velho, surpreendido, quando este se retirou para pedir mais uma garrafa de vinho. – Então, está tudo bem! Beba, meu amigo, ele não ficou com nada que não era dele.
Incomodado, o velhote do meio não bebeu mais nada e retirou-se, para surpresa de todos. Ele achava muito estranha toda aquela história e por isso decidiu que na manhã seguinte visitaria a nora do seu amigo.
Ainda fragilizada, recebeu-o com um sorriso e após algumas perguntas sobre o seu bem-estar e da recém-nascida, ouviu algo que a deixou sem palavras:
- A senhora é muito generosa por dar tanto dinheiro ao seu sogro… Foi realmente uma boa recompensa pela ajuda que ele tem dado para com a Maria.
Não precisou dizer mais nada para compreender o que possivelmente tinha acontecido: o seu amigo encontrara o dinheiro no chão e não o devolvera. Desapontado, decidiu chama-lo novamente à razão, algo que não surtiu qualquer efeito, já que este teimava na história da nota no berço.
Só anos depois, com a recém-nascida a fazer treze anos, é que todos ficaram a saber de onde viera aquele dinheiro. O próprio duende revelou que aquele dinheiro fora deixado por ele como pagamento do dote para o seu casamento com Maria e que era algo que os duendes costumavam prometer aos familiares da noiva como prova do seu valor.
Explicou ainda que ao aceitarem tal oferenda, os familiares mostravam contentamento naquela união e que havia esperado ansiosamente pela idade adulta da sua noiva, treze anos realizados.
Exaltado, o avô de Maria ainda tentou devolver o dinheiro gasto na bebida, mas o duende, espertalhão, respondeu:

Achado não é roubado
E no chão não foste encontrar,
Mas sim no berço deste tesouro
A quem eu soube salvaguardar.

Àquele que ao dinheiro mais quer
Uma fortuna perdida vai encontrar,
Pois na vida nada é achado
Mas sim encontrado a quem procurar.

Avarento, de certeza não o és,
Mas a honestidade não a sabes pintar,
O dinheiro que gastaste em bebidas
Vou eu agora, feliz, disfrutar!

Abanaste a mãozinha de leve
Para o passado não te importunar.
Eu, agora, vitorioso e satisfeito,
Com a tua neta vou casar!


E sem dizer mais nada, o duende partiu, levando a sua noiva ao colo, a quem nunca nada lhe faltou. Quando engendrara o plano, de deixar o dinheiro no berço e ver o que acontecia, havia sido apanhado de surpresa por aquele tesouro, algo que nunca vira tão belo, e é verdade – não existe maior e mais belo tesouro no mundo do que o verdadeiro amor.

FIM…
(Borboleta Voadora, Portugal, 13-05-2018)


Um abraço e até à próxima.


Borboleta Voadora
😊😊😊

quinta-feira, abril 19

O Conto Fantástico




Numa das minhas publicações anteriores falei-vos dos vários tipos de contos que existem e entre tantos decidi falar-vos deste, que conviveu connosco desde a nossa infância.
Não citarei novamente a definição de conto nem as suas principais características, pois já o fiz na publicação direcionada ao conto como um todo. Se tiveres alguma dúvida, não deixes de lá passar! E agora, vamos ao que interessa…

Este tipo de conto teve origem no século XVII, no entanto, só se intensificou a partir do século XX, que foi a forma encontrada na época para denunciar a realidade opressiva que viviam por causa da ditadura.

A narrativa deste tipo de conto desenrola-se numa realidade irracional, num mundo fantástico com acontecimentos improváveis e ações que ultrapassam a realidade. A magia é o centro de todos os acontecimentos e ações das personagens, que ocorrem neste mundo como se fossem totalmente normais. E claro, todas as suas personagens são dotadas pela fantasia. O que distingue este conto dos demais é exatamente isso, a presença da magia que envolve todas as personagens da história.
Normalmente, o herói possui características humanas e limites físicos e emocionais, e ultrapassa todos os obstáculos, obtendo o mais esperado êxito, mas com a ajuda do sobrenatural.

Um dos escritores mais conhecidos deste tipo de conto é o austríaco Franz Kafka (1883-1924), autor da obra “A Metamorfose” de 1912.
Alguns dos exemplos mais conhecidos deste tipo de conto são “A Branca de Neve e os Sete Anões”, “A Bela Adormecida”, “A Bela e o Monstro”, “Os Três Porquinhos”, “A Polegarzinha” e “O Pinóquio”, mas existem outros, porem de maior complexidade, como “As Cronicas de Nárnia”, “Harry Potter” e “O Senhor dos Anéis”.

As principais características do conto fantástico são:

  • Possui uma narrativa curta que aborda temas livres de escolha;
  • Concilia o fantástico e a realidade, surgindo assim a oposição entre os dois planos existentes: o real e o irreal;
  • As suas personagens são do género fantástico, como seres invisíveis, seres mágicos, seres mitológicos, seres lendários e folclóricos, entre outros;
  • Possui um enredo que pode ou não seguir uma linha cronológica e psicológica;
  • Possui uma realidade distante da lógica, composta de elementos fantásticos/imaginários e magia/poderes sobrenaturais;
  • Normalmente, provoca sensações de estranheza no leitor, por haver uma rutura da realidade com a fantasia.

Como podes ver, o conto fantástico não possui grandes regras e pode ser escrito por qualquer pessoa, logo que respeite as suas principais características e a existência da magia neste universo.
Espero que te tenha ajudado de alguma maneira… 😉


Bem, por hoje é tudo...
Se tiveres alguma dúvida ou algum tema que queiras ver tratado aqui no meu blog, deixa a tua opinião nos comentários.
Estou sempre apta a ouvir os meus leitores.

Um abraço e até à próxima.


Borboleta Voadora
😊😊😊