Na minha publicação anterior sobre os elementos da narrativa falei do
tempo, um elemento importante que ajuda o narrador a estruturar a história, e
falei também que o tempo se sobressai ao espaço, mas em que consiste exatamente
o espaço?
No tempo, o enredo se desenvolve em camadas temporais, já que os
acontecimentos que o compõem podem ser transmitidos ao leitor quando o narrador
achar melhor. Esses acontecimentos sucedem-se num lugar específico, ou seja, o
espaço resume-se no lugar onde a história se desenrola e onde as personagens
vivem e interagem com os outros elementos da narrativa.
O tempo é um elemento invisível aos nossos olhos, ao contrário do
espaço, e tem uma função imprescindível para a história. Acredito que por
diversas vezes estudaste o tempo e o espaço juntos (na escola, por exemplo) e
existe uma razão para isso: os dois elementos estão ligados um ao outro. Mas eu
decidi falar-te deles separadamente, e antes de avançar preciso explicar-te o
que quis dizer com invisível.
Repara: numa peça de teatro, uma cadeira cai, ouve-se a madeira a chocar
com o chão do placo e em seguida, o silencio ou até mesmo o nervosismo de uma
ou mais personagens. Nesta pequena cena, presenciaste o espaço onde a cadeira
estava, viste-a a cair e onde caiu e ouviste o som que ela fez, mas não viste
nem contaste o tempo. Estou certa ou errada? É isso mesmo que estás a pensar! O
espaço é algo físico, tocável, visível aos nossos olhos, mas o tempo, mesmo que
o contes, não o podes ver nem sentir, é logo invisível aos olhos e aos sentidos.
A relação que o tempo e o espaço têm é esse: complementam-se
harmoniosamente para contar uma história e talvez seja essa a razão que leve ao
seu estudo em conjunto.
Mas isto foi apenas um aparte… 😉
Tal como disse, o espaço é o lugar onde a história se desenrola, onde as
personagens vivem e interagem. E por mais difícil que possa parecer, acredita,
possui uma grande influência sobre a história. O espaço afeta as personagens,
por exemplo, tornando-as alvos de decisões, atitudes e pensamentos diversos. Um
personagem pobre se sentirá constrangido num lugar requintado, certo?
E tal como as personagens, o espaço também recebe características
especificas – se for um quarto possui umas, se for uma floresta possui outras,
se for uma aldeia possui outras, se for uma cidade outras… Todos os lugares
possuem características únicas, como se fossem as suas próprias personalidades.
Quando narramos um espaço fictício, ou seja, criado por nós, ele deve
possuir também as suas próprias características, mas deves ter em conta o mundo
real. Numa história narrada em alto mar, com cardumes de peixes e pescadores e
a tudo mais a que tem direito, será estranho encontrar uma cama ou uma
televisão acesa, certo? Mas não é uma regra geral, pois na ficção tudo é
possível e acredito que tenhas entendido onde eu queria chegar – cada lugar
deve possuir lógica na sua criação e descrição.
E ao falarmos do espaço, o ambiente também é importante distinguir,
constituindo-se num dos integrantes deste elemento da narrativa. Mas a que se
refere o ambiente? Se focaste a tua mente numa floresta onde a natureza cresce
vigorosamente, estás um pouco longe da sua definição real…
O ambiente resume-se nas características morais, culturais, socioeconómicas
e psicológicas do espaço onde as personagens vivem – grupos sociais, a posição
que as personagens ocupam na sociedade, conjunto de crenças, valores, costumes
e tradições.
Portanto, o ambiente não é fundamental para estruturar a história, mas
um elemento modelador, ou seja, dá vida ao espaço existente na história.
Entre as várias funções que possui, destacam-se algumas, como:
um
influenciador, já que pode influenciar os comportamentos, os pensamentos e as
decisões das personagens – a religião, por exemplo, influencia as crenças das
personagens;
um
caracterizador, já que pode atribuir características especificas de
personalidade às personagens, indiretamente, pela composição física do espaço –
num quarto onde as cores predominantes são o branco e o preto podemos concluir
que o dono do quarto gosta de cores neutras – e pode também atribuir
características a acontecimentos – se um quanto está totalmente revirado
significa que pode ter sido assaltado.
um
desvendador, no caso das histórias de suspense e policial, já que pode fornecer
características, situações e/ou pistas para a resolução de um conflito – uma
faca manchada de sangue irá fornecer o ADN da vitima e as impressões digitais
do assassino.
um
conflito, já que pode entrar em contradição com as personagens por apresentar
certas características contraditórias à personalidade viva, tornando-se neste
caso o próprio problema da história – um lugar cheio de pessoas será um
problema para alguém com demofobia.
O clima também possui um papel importante na criação e caracterização do
espaço, seja ele real ou fictício. Um dia ensolarado permitirá visualizar algo
que provavelmente não é visível num dia de chuva ou nevoeiro, por exemplo.
O clima tem o poder de influenciar as personagens, tal como o ambiente, sejam
nas suas atitudes, pensamentos, decisões e neste caso específico, no seu estado
de espirito. Estar feliz ou triste pode ser influência do tempo que está la
fora, por exemplo.
Antes de dar por terminado este elemento da narrativa, quero deixar
estas três definições. Espero que te ajudem.
Espaço Físico
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Corresponde
ao lugar real onde se passa a história, seja ele exterior ou interior. Ex:
sala, cozinha, rua, floresta, montanha, etc.
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Espaço Social
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Corresponde
à posição e ao conjunto de características sociais que a personagem adquiriu
ou já possuía; traços sociais. Ex: politico.
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Espaço Psicológico
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Corresponde
às vivências, pensamentos, memórias, sonhos e reflexões que a personagem possui
e que caracteriza o ambiente onde está inserida. Ex: memórias da sua falecida
mãe.
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Bem, por
hoje é tudo. 😉
Um abraço
e até à próxima.
Borboleta
Voadora
😊😊😊