“O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o
tempo tem! O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo
o tempo tem.”
Sim, o tempo, o maior inimigo da humanidade… Nunca vivemos o suficiente…!
Acredita, o tempo é um grande antagonista, pois nunca temos tempo para
fazer o que queremos ou planeamos, e as nossas escolhas estão quase sempre
ligadas a ele, seja para casar, para ter o primeiro ou segundo filho, para
comprar uma casa, para pagar uma dívida, tudo acontece em função do tempo que
temos!
Quantas vezes já olhaste em volta e culpaste o tempo por algo que
aconteceu ou iria acontecer? Ou a ti próprio(a) por não seres tão rápido(a) quanto
deverias? Muitas vezes…, não é? Mas não vale a pena “perdermos tempo” a pensar
nisto.
E deves estar, neste momento, a perguntar-te por que razão comecei por
esta reflexão estranha sobre o tempo… A resposta é muito simples! Os
acontecimentos de uma história surgem em função do tempo, tal como as nossas
escolhas. Tudo existe em função do tempo…, e é sobre ele que vou falar a
seguir!
O tempo está presente em tudo o que fazemos, seja para narrarmos uma
história seja para ela mesma evoluir. Tudo acontece em função deste elemento da
narrativa, que estabelece a duração do enredo e marca a sequência cronológica
dos acontecimentos.
O acontecimento central da história, aquele que está ligado à ação primordial
do enredo, desenvolve-se e evolui à medida que outros acontecimentos menos
importantes são concluídos e dão origem a outros. Sem o tempo, estes
acontecimentos surgiriam totalmente desconectados e confusos, tornando a
compreensão limitada ou nula.
Os acontecimentos, tal como citei na minha publicação sobre o enredo,
surgem na história numa ordem que o narrador acredita ser a mais viável para a
narração da mesma. Se pensarmos um pouco, podemos concluir que o tempo ajuda o
narrador a estruturar a história, estabelecendo uma fácil compreensão do enredo
por parte do leitor.
Para conseguires identificar o tempo que está presente numa narrativa,
num livro qualquer que pegues ai da tua estante, deves em primeiro lugar conhece-los,
e entre alguns que aprendi decidi distinguir três, aqueles que achei serem os mais
importantes: o tempo histórico, o tempo cronológico e o tempo psicológico.
O tempo histórico é o tempo mais conhecido e também o maior de todos, já
que está associado aos acontecimentos narrados na história, ou seja, os
acontecimentos são narrados dentro do tempo histórico. Ao escreveres uma
história, é importante que tenhas em atenção a época que escolheste – ela irá
ditar muitas das suas características (a Idade Média é diferente da Idade do
Bronze, por exemplo). E mesmo que escolhas uma época que não exista no nosso
mundo, como 2000 anos no futuro, é fundamental que ela esteja relacionada com o
nosso tempo real, de maneira a que haja uma contextualização. Caso a história
aconteça num mundo fictício, criado por ti, e a época seja consequentemente
fictícia, essa mesma contextualização deve ser criada.
Lembra-te: não existe
presente sem passado e nem futuro sem presente. O tempo deve,
imprescindivelmente, possuir uma concordância lógica e concreta.
O tempo cronológico é aquele que se relaciona com a ordem natural dos
acontecimentos, isto é, os acontecimentos surgem na história na ordem pelo qual
aconteceram, sem haver qualquer mudança de posição neles. Este tipo de tempo
aparece frequentemente nos livros clássicos.
Repara: se desejas contar o que
aconteceu num dia qualquer de uma determinada personagem deverás começar logo
pela manhã, pelo momento exato em que ela acordou e deverás terminar com ela a
adormecer – neste caso particular, os acontecimentos serão narrados ao leitor no
momento exato da sua ocorrência e ordenados pela passagem dos segundos, dos minutos
e das horas desse dia.
O tempo psicológico, por outro lado, está associado à vontade do
narrador ou de uma certa personagem, já que os acontecimentos narrados são
transmitidos ao leitor da maneira e na altura que determinarem ser a mais
correta. A ordem dos acontecimentos não está relacionada a um enredo linear –
não aparecem na história no momento da sua ocorrência, como acontece no tempo
cronológico, e sim quando o narrador assim o escolhe ou deseja. Numa história
em que o tempo associado é o tempo psicológico, todos os elementos da narrativa
estão ligados à consciência daquele que está a narrar (narrador), submetendo-os
a escolhas e a pensamentos interligados.
Vamos a um exemplo: o protagonista
está acompanhado por uma outra personagem e está a relatar uma distração
engraçada que teve nessa manhã enquanto fazia o pequeno-almoço, e de repente decide
contar algo semelhante que lhe aconteceu dias antes – os acontecimentos são
narrados sem ordem cronológica, mas estão ligados de alguma maneira.
Quando a ordem textual dos acontecimentos não é linear, ocorre a
utilização de certos recursos que possibilitam esta alteração temporal. Entre
eles estão o flashback ou analepse, a prolepse, a elipse e o resumo.
O flashback ou analepse é uma das características mais conhecidas do tempo
psicológico, que consiste numa volta no tempo para contar algo que aconteceu no
passado, um acontecimento distante do momento em que se situa a história. Normalmente,
é utilizado para recordar algo que aconteceu, importante para o prosseguimento
da narrativa. Este recou no tempo é facilmente identificado com o período que é
colocado no início, no meio ou no fim dessa mesma passagem (cena).
Exemplo:
Três dias antes, a Carlota havia apanhado os morangos com o seu avô.
A prolepse é o oposto da analepse, consistindo num avanço no tempo da
narrativa para revelar ou antecipar acontecimentos.
Exemplo: A Catarina olhou-a
e compreendeu-a apenas quando o seu pai lhe contou a verdade sobre o seu
passado. Ela era, definitivamente, igual à sua amiga.
A elipse consiste numa exclusão de um determinado intervalo de tempo,
normalmente extenso, ou seja, a eliminação de acontecimentos que ocorreram mas
que seriam banais para a evolução do enredo. É um processo bastante relevante
na criação narrativa, pois o narrador jamais poderia relatar, honestamente,
tudo o que aconteceu na vida de um ou mais personagens – tudo aquilo que é insignificante
para a história deve ser eliminado!
Exemplo: Depois daquela conversa sufocante,
Maria não falou mais com a sua mãe. Não queria dizer-lhe mais nada. E assim se
passaram 10 anos até que (…).
Por fim, o resumo baseia-se num sumário de uma parte da história, que
levaria muito tempo para contar em pormenor, mas que em nada influenciaria a
história. Fica então abreviado a um pequeno intervalo de tempo que demoraria a ocorrer.
Exemplo: Dai a alguns dias, Manuela voltou a jogar, levantando o astral da sua
equipa.
Antes de dar por terminado este elemento da narrativa, quero sublinhar
algo muito importante: o tempo é fundamental para contar a história. Sei que estou
a ser repetitiva, mas nunca é demais lembrar a importância que cada um dos
elementos tem na narrativa… Enquanto o espaço é fundamental para mostrar a
história, mas quanto a ele terás de esperar!
Mas não te preocupes, vereemo-nos
em breve…
😉😉😉
Um abraço
e até à próxima.
Borboleta
Voadora
😊😊😊