quinta-feira, julho 12

Crónica - O Cão que Ladrava




Hoje é dia de Crónica.
😉😉😉


Crónica - O Cão que Ladrava.

Depois de uma noite mal dormida e de um pequeno-almoço fraco que mais parecia comida para cão, cruzei-me a caminho do carro por umas senhoras que cochichavam sem parar. Durante esse tempo, não liguei, mas quando coloquei a marcha atrás e segui o meu caminho, aquelas três ficaram na minha mente. Perguntei-me por diversas vezes a razão de elas tanto cochicharem, mas ao cabo de algum tempo, também me perguntei porque haveria eu de me importar com elas.
A meio do caminho, deparei-me com uma ambulância que gritava aos quatro ventos que estava com pressa e como manda a lei, abrandei e esperei que ela passasse. Lembro-me de ter lamentado a desgraça que havia caído sofre o coitado, mas não perdi muito tempo a pensar nisso: algo bastante comum, acho eu.
Quando cheguei ao trabalho, depois de ser parado novamente pela polícia, ouvi vários cães a ladrar: achei estranho, já que o silêncio reinava sempre naquele lugar cinzento e frio. Um colega ainda me abordou para perguntar se eu sabia de alguma coisa, mas como de costume, não esperou pela resposta. Muito sociável, não?
Antes de entrar, para começar mais um dia exaustivo de computadores, números e contas, reparei num pequeno cão que passou e rapidamente desapareceu ao virar da esquina, com a pressa que tinha nas patas e no seu rabo descido. Questionei-me se seria da vizinhança, de alguém que vivia ali perto e o deixara sair para esticar as patas, mas pouco foi o tempo que fiquei a pensar nele.
O alvoroço dos cães manteve-se constante, diminuindo apenas por volta das cinco da tarde, altura em que já chovia a potes. A molha que apanhei foi tanta que nem as lágrimas que soltei, naquela noite, seriam o suficiente para compensar a dor que aquele pequeno ser frágil e irracional sentiu… A notícia que assombrou a minha vida acabou por assombrar, também, a vida dele.
A ambulância levou a minha tia para o hospital logo após o ataque cardíaco. Ela era a única família que me restava e quando recebi a notícia que falecera, naquela noite, muitas lágrimas me vieram e caíram dos olhos. Ela era como uma mãe para mim, que sempre me dera força e coragem para continuar neste mundo anormal.
E aquela notícia surpreendeu-me de tal forma que quando vi o cão daquele dia, algum tempo depois, em frente do meu prédio e com uma expressão medonha no rosto, não me admirei.
Era como se eu já estivesse à espera dele, ali deitado sobre o tapete, enraivecido, molhado e cheio de frio.
Sim! A sua expressão manteve-se ao longo das semanas seguintes, e sempre que me via, desatava a ladrar e a correr atrás de mim. Inquieto, tentei ao longo daquele tempo entender a sua fixação por mim: para dizer a verdade, nunca fora um amante de animais… E nas diversas vezes que tentei aproximar-me, para tentar de alguma forma entender o que se passava na mente dele, mostrou-me os dentes. Não confiava em mim e o sentimento era mútuo. Mas numa noite chuvosa, igual àquela outra, descobri finalmente a razão do seu apego repentino: a ambulância que havia levado a minha tia para o hospital atropelara um outro cão e o abandonara.
No seu pensar próprio e simples, ele tinha um bom motivo para estar com raiva de mim e dos outros seres humanos. A vida que havia sido abandonada fora perdida e nós, seres dotados de inteligência e racionalidade, não nos tínhamos importado com isso.
É facto, a vida é algo frágil e propensa a cuidados redobrados. A morte não quer culpas e quando vem buscar alguém, não olha para trás… Pobre vida, com um fim doloroso e sem compaixão… Na manha seguinte àquele telefonema não pude mais ignorá-lo. O sentimento de culpa e de responsabilidade apoderou-se de mim como um espirito amaldiçoado.
O meu peito dolorido pedia-me pensamentos razoáveis. Não podia abandona-lo, tal como os outros… E mesmo que tivesse sido por puro acaso! Jamais abandonaríamos um semelhante, a minha tia, mas então e as outras vidas? Não têm direito de serem preservadas?
Foram com estes e outros pensamentos que decidi acolher aquela vida sem consolação, sozinha no mundo tal como eu… Apresentei-me sorridente e de mão estendida, convencido de que ele me aceitaria mesmo com aquela raiva toda, mas isso não aconteceu. Só após algumas mordidas durante várias semanas é que conquistei o seu coração. O meu acolher destemido e a dor das suas dentadas afiadas não foram suficientes para apagar o mal da sociedade, mas talvez o bastante para abrandar a dor deste ser vulnerável à maldade humana.

FIM.


Um abraço e até à próxima.


Borboleta Voadora
😊😊😊

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