Hoje é dia de Crónica.
😉😉😉
Crónica - O Cão que Ladrava.
Depois de uma noite mal dormida e de um pequeno-almoço fraco que mais
parecia comida para cão, cruzei-me a caminho do carro por umas senhoras que
cochichavam sem parar. Durante esse tempo, não liguei, mas quando coloquei a
marcha atrás e segui o meu caminho, aquelas três ficaram na minha mente.
Perguntei-me por diversas vezes a razão de elas tanto cochicharem, mas ao cabo
de algum tempo, também me perguntei porque haveria eu de me importar com elas.
A meio do caminho, deparei-me com uma
ambulância que gritava aos quatro ventos que estava com pressa e como manda a
lei, abrandei e esperei que ela passasse. Lembro-me de ter lamentado a desgraça
que havia caído sofre o coitado, mas não perdi muito tempo a pensar nisso: algo
bastante comum, acho eu.
Quando cheguei ao trabalho, depois de ser parado novamente pela polícia,
ouvi vários cães a ladrar: achei estranho, já que o silêncio reinava sempre
naquele lugar cinzento e frio. Um colega ainda me abordou para perguntar se eu
sabia de alguma coisa, mas como de costume, não esperou pela resposta. Muito
sociável, não?
Antes de entrar, para começar mais um dia exaustivo de computadores,
números e contas, reparei num pequeno cão que passou e rapidamente desapareceu
ao virar da esquina, com a pressa que tinha nas patas e no seu rabo descido.
Questionei-me se seria da vizinhança, de alguém que vivia ali perto e o deixara
sair para esticar as patas, mas pouco foi o tempo que fiquei a pensar nele.
O alvoroço dos cães manteve-se constante, diminuindo apenas por volta
das cinco da tarde, altura em que já chovia a potes. A molha que apanhei foi
tanta que nem as lágrimas que soltei, naquela noite, seriam o suficiente para
compensar a dor que aquele pequeno ser frágil e irracional sentiu… A notícia
que assombrou a minha vida acabou por assombrar, também, a vida dele.
A ambulância levou a minha tia para o hospital logo após o ataque
cardíaco. Ela era a única família que me restava e quando recebi a notícia que
falecera, naquela noite, muitas lágrimas me vieram e caíram dos olhos. Ela era
como uma mãe para mim, que sempre me dera força e coragem para continuar neste
mundo anormal.
E aquela notícia surpreendeu-me de tal forma que quando vi o cão daquele
dia, algum tempo depois, em frente do meu prédio e com uma expressão medonha no
rosto, não me admirei.
Era como se eu já estivesse à espera dele, ali deitado
sobre o tapete, enraivecido, molhado e cheio de frio.
Sim! A sua expressão manteve-se ao longo das semanas seguintes, e sempre
que me via, desatava a ladrar e a correr atrás de mim. Inquieto, tentei ao
longo daquele tempo entender a sua fixação por mim: para dizer a verdade, nunca
fora um amante de animais… E nas diversas vezes que tentei aproximar-me, para
tentar de alguma forma entender o que se passava na mente dele, mostrou-me os
dentes. Não confiava em mim e o sentimento era mútuo. Mas numa noite chuvosa,
igual àquela outra, descobri finalmente a razão do seu apego repentino: a
ambulância que havia levado a minha tia para o hospital atropelara um outro cão
e o abandonara.
No seu pensar próprio e simples, ele tinha um bom motivo para estar com
raiva de mim e dos outros seres humanos. A vida que havia sido abandonada fora
perdida e nós, seres dotados de inteligência e racionalidade, não nos tínhamos
importado com isso.
É facto, a vida é algo frágil e propensa a cuidados redobrados. A morte
não quer culpas e quando vem buscar alguém, não olha para trás… Pobre vida, com
um fim doloroso e sem compaixão… Na manha seguinte àquele telefonema não pude
mais ignorá-lo. O sentimento de culpa e de responsabilidade apoderou-se de mim
como um espirito amaldiçoado.
O meu peito dolorido pedia-me pensamentos razoáveis. Não podia
abandona-lo, tal como os outros… E mesmo que tivesse sido por puro acaso! Jamais
abandonaríamos um semelhante, a minha tia, mas então e as outras vidas? Não têm
direito de serem preservadas?
Foram com estes e outros pensamentos que decidi
acolher aquela vida sem consolação, sozinha no mundo tal como eu… Apresentei-me
sorridente e de mão estendida, convencido de que ele me aceitaria mesmo com
aquela raiva toda, mas isso não aconteceu. Só após algumas mordidas durante
várias semanas é que conquistei o seu coração. O meu acolher destemido e a dor
das suas dentadas afiadas não foram suficientes para apagar o mal da sociedade,
mas talvez o bastante para abrandar a dor deste ser vulnerável à maldade humana.
FIM.
Um abraço e até à próxima.
Borboleta Voadora
😊😊😊
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