Para protegerem as suas
coisas, os aldeões trancavam tudo, portas, janelas, chaminés, todos os lugares
possíveis que os duendes podiam usar para entrar. E nas noites de lua cheia,
nem dormiam, pois segundo a lenda os duendes seriam mais agressivos e
traiçoeiros.
Numa noite destas, três
velhos amigos decidiram pernoitar na casa do mais novo para festejarem o seu
aniversário e à mesa nada faltou; havia bolo, bolachas, salgadinhos, vinho e
cerveja. Pouco estavam preocupados com os duendes, pois à conta da lenda sabiam
que eles detestavam barulho.
O que eles não sabiam
era que um dos duendes gostava exatamente do oposto e que no momento em que a
conversa deles chegara a meio, este entrara pela janela deixada aberta e
escondera-se debaixo da mesa.
- Foi mesmo engraçado –
comentou o do meio, entre gargalhadas. – O amigo fez muito bem impedi-lo!
- Eu não fiz nada de
mais… – disse o mais velho, ao beber um gole do seu copo de vinho. – Ele não
devia ter exaltado o nosso amigo daquela maneira. Todos sabemos que é bastante
agressivo quando algo não lhe corre bem…
- Isso já passou – disse
o mais novo, sacudindo a mão de trás para a frente. – Isso agora não importa
mais! Não sou homem de me importar com algo que já passou.
- Lá nisso… – murmurou o
do meio, bebendo o que lhe restava da sua cerveja.
- Mais uma? – perguntou
o mais novo, inclinando-se para lhe entregar uma outra garrafa. – Ainda está
fresca!
- Não, obrigada. Prometi
há minha mulher que não chegava a casa a dançar e a cantarolar esta noite.
- Que tolice –
resmungou. – Estamos a festejar…
- Sabem uma coisa –
começou o mais velho, bebendo mais um gole do seu copo de vinho. – Noutro dia
encontrei uma nota de cinquenta euros no chão e depois de pensar um pouco no
que devia fazer com ela, devolvi-a ao dono.
- Que disparate! –
comentou o mais novo, que já ia no seu décimo copo cheio. – Eu, se a tivesse
encontrado, tê-la-ia gastado.
- Pois então fiz mal? –
perguntou.
- Com certeza –
respondeu prontamente, ao encher o seu décimo primeiro copo. – Eu tê-la-ia
gastado em vinho bom que nem este!
- Isso está errado –
afirmou o do meio. – Isso é ser desonesto. É um roubo!
Surpreendidos, os dois
amigos olharam-no.
- Aqui, os únicos
ladrões são os duendes! – exclamou o mais novo, ofendido. – São eles que entram
nas nossas casas e vasculham as nossas coisas… Eu nunca fiz uma coisa dessas!
Achado não é roubado!
- Talvez tenha razão… –
murmurou o mais velho, pensativo. – Se calhar, não lhe teriam feito assim tanta
falta!
- Está enganado! –
insistiu o do meio, com uma expressão séria no rosto. – De certeza que ajudou
quem o perdeu.
- Que disparate! –
exclamou o mais novo, cada vez mais exaltado. – A filha do nosso amigo faria
melhor farinha dele! Para sustentar aquele preguiçoso…
Ao fixar o amigo, o do
meio perguntou:
- E se fosse uma nota
deixada pelos duendes? Eles voltariam por ela… São gananciosos e o amigo
acabaria por ser amaldiçoado por eles.
Os dois amigos
olharam-se.
- Não era – afirmou o
mais velho. – A nota pertencia aos velhotes que moram no fim da aldeia!
- Estás a ver, estás a
exagerar! – comentou o mais novo, arrotando logo de seguida. – Os duendes não
são assim tão desleixados!
- Pois é! O amigo não
devia ser tão certinho. O casal, de certeza, nem precisava dele – disse o mais
velho, bebendo o seu vinho.
O velhote do meio
respirou fundo e depois perguntou ao mais novo:
- Então, se encontrasse
uma nota de cinquenta euros no chão, gastá-la-ia? Não hesitaria em gastar um
dinheiro que não lhe pertencia? O amigo não devia ser tão avarento. Isso, tal
como disse ainda há pouco, é ser desonesto!
- Claro que não –
respondeu, dando uma gargalhada. – E eu não sou avarento!
O mais novo voltou a
encher o seu copo e bebeu de uma só vez. O mais velho fez o mesmo logo de
seguida. O do meio olhou-os, admirado.
- A minha neta já nasceu
– disse o mais novo, a certa altura. – Possui lindos cabelos de ouro e duas
safiras azuis no lugar dos olhos. É lindíssima!
- Sim, é mesmo linda –
comentou o mais velho. – Fui vê-la na semana passada, quando nasceu. É tal e
qual um dia de sol…
- Eu também fui vê-la
quando nasceu. Sim, é muito bonita, meus parabéns! É igualzinha à mãe…
- Nada disso! –
exaltou-se. – A minha neta é a cara do pai!
E assim passaram a
noite, na conversa e a beber, enquanto o duende, atento a cada palavra dita,
decidiu dar uma lição ao mais novo. Os duendes roubavam, mas tinham uma boa
razão para os seus ditos crimes: todos os anos, naquela época fria, sofriam com
uma grande escassez de alimento, algo que precisavam para sobreviver, e
qualquer outra coisa desaparecida na aldeia não tinha mão de duende. Eram
ladrões honestos e orgulhavam-se de o ser, e determinado a ensinar-lhe a ser
também honesto, arquitetou um plano.
Numa noite, o mais novo
dos três amigos pagou bebidas a todos os homens da aldeia. Não houve quem não
estranhasse tamanha simpatia e aquela quantidade exagerada de dinheiro, o que
fez com que a certa altura, o mais velho lhe perguntasse, por curiosidade, onde
arranjara tanto dinheiro e a sua resposta foi tão chocante que nem o do meio
teve a coragem de dizer fosse o que fosse:
- Não me olhem assim, eu
não o apanhei do chão. Eu não o roubei! A minha nora deixou-me uma nota de cem
euros no berço da Maria, quando foi à feira. Ninguém o perdeu, simplesmente
deram-mo! A minha nora é tão generosa…
- Mesmo! – exclamou o
mais velho, surpreendido, quando este se retirou para pedir mais uma garrafa de
vinho. – Então, está tudo bem! Beba, meu amigo, ele não ficou com nada que não
era dele.
Incomodado, o velhote do
meio não bebeu mais nada e retirou-se, para surpresa de todos. Ele achava muito
estranha toda aquela história e por isso decidiu que na manhã seguinte
visitaria a nora do seu amigo.
Ainda fragilizada,
recebeu-o com um sorriso e após algumas perguntas sobre o seu bem-estar e da
recém-nascida, ouviu algo que a deixou sem palavras:
- A senhora é muito
generosa por dar tanto dinheiro ao seu sogro… Foi realmente uma boa recompensa
pela ajuda que ele tem dado para com a Maria.
Não precisou dizer mais
nada para compreender o que possivelmente tinha acontecido: o seu amigo
encontrara o dinheiro no chão e não o devolvera. Desapontado, decidiu chama-lo
novamente à razão, algo que não surtiu qualquer efeito, já que este teimava na
história da nota no berço.
Só anos depois, com a
recém-nascida a fazer treze anos, é que todos ficaram a saber de onde viera
aquele dinheiro. O próprio duende revelou que aquele dinheiro fora deixado por
ele como pagamento do dote para o seu casamento com Maria e que era algo que os
duendes costumavam prometer aos familiares da noiva como prova do seu valor.
Explicou ainda que ao
aceitarem tal oferenda, os familiares mostravam contentamento naquela união e
que havia esperado ansiosamente pela idade adulta da sua noiva, treze anos
realizados.
Exaltado, o avô de Maria
ainda tentou devolver o dinheiro gasto na bebida, mas o duende, espertalhão,
respondeu:
Achado não é roubado
E no chão não foste
encontrar,
Mas sim no berço deste
tesouro
A quem eu soube
salvaguardar.
Àquele que ao dinheiro
mais quer
Uma fortuna perdida vai
encontrar,
Pois na vida nada é
achado
Mas sim encontrado a
quem procurar.
Avarento, de certeza não
o és,
Mas a honestidade não a
sabes pintar,
O dinheiro que gastaste em
bebidas
Vou eu agora, feliz,
disfrutar!
Abanaste a mãozinha de
leve
Para o passado não te
importunar.
Eu, agora, vitorioso e
satisfeito,
Com a tua neta vou
casar!