Ainda me lembro da velha história que a minha mãe contava sobre a velha jarra e o rustico aparador de madeira escura. Segundo as suas próprias palavras, na altura do meu nascimento, a minha avó decidiu decorar o longo corredor com um aparador já bastante velho, que fora presente da sua tia na altura do seu casamento.
Devo ter me perguntado, por diversas vezes, em pequeno, quantos anos teria aquele aparador… Talvez uns cem anos, ou talvez muito mais. O certo é que a velha jarra, outrora esquecida no sótão, uma jarra de cor envelhecida, larga e decorada com pinceladas aleatórias, foi colocada sobre esse mesmo aparador e não teria sido um alvoroço se a suposta jarra não fosse amaldiçoada. Sim, não te enganaste, eu disse amaldiçoada.
A verdade é que durante o tempo em que aquela jarra esteve exposta, eu sofria de algo que até hoje não sei descrever. Nem eu, nem a minha mãe, e o meu pai evita até hoje falar sobre o assunto.
Tudo o que me contaram é que eu chorava muito sempre que visitava os meus avós, algo que se prolongou até aos cinco anos de idade, época em que eu, supostamente, embirrei com a jarra. Parece que ficava horas a olhar para ela, e perguntava tempos a tempos a razão de ela estar ali, sobre aquele aparador de madeira escura.
O certo é que hoje não importa mais a idade que tinha ambas as peças, já que a jarra veio a partir pouco tempo depois quando lhe mandei com uma bola e o aparador, solitariamente, continuou no corredor até a grande casa ser vendida. Provavelmente, os novos moradores devem ter se desfeito dele.
Mas a coisa mais estranha desta história é que após a jarra partir, segundo a minha mãe, não voltei a chorar como quem me matasse, nem a olhar para o aparador constantemente.
Hoje, com pouco mais de quarenta anos, pergunto-me se tudo isto não aconteceu por a jarra ser velha e muito feia! Enfim, nunca vou chegar a saber, mas o mais certo é de ser exatamente isso, nada mais… Amaldiçoada? Claro que não!
Fim.
Um abraço e até à próxima.
Borboleta Voadora
😊😊😊