Boa tarde, como estão os vossos corações?
A chuva cai lá fora, fina e abundante. 😉
Eu gosto da chuva, acalma o meu coração.
Conto – Obrigado
Desespero, dor, medo. Sentia um turbilhão de sentimentos, mas alguns destacavam-se. As suas mãos sujas de terra e sangue tremiam, o seu corpo dolorido ansiava pelo descanso e a sensação acolhedora de algumas horas atrás...
Porque tinha abandonado os seus amigos na biblioteca?
Pedro sabia a resposta, a mensagem assustadora que recebera o tinha sobressaltado de tal maneira que receou pela segurança deles. Só aquele pensamento lhe tinha passado pelo coração, e o medo. Medo de perder a sua amizade, medo de os envolver nos seus problemas, medo de que o culpassem de algo que pudesse acontecer se não os tivesse deixado…
Escondido atrás de um contentor do lixo, Pedro vigiava os seus perseguidores que o procuravam nas redondezas. Ouvia-os gritar e amaldiçoar. Se o encontrassem, teria problemas maiores do que aquela queda desastrada e os pontapés nas pernas e no estomago.
Provavelmente, assim que acordasse na manha seguinte teria nodoas negras pelo corpo e dores musculares. Mas nada disto importava, logo que conseguisse chegar a casa em segurança e deixar os amigos bem, longe de todo aquele pesadelo.
Perguntava-se o que teria feito de mal para estar a ser ameaçado, caluniado, agredido e provocado daquela maneira, onde não tinha paz em nenhum momento. Sempre fora um rapaz alegre, brincalhão e extrovertido, pronto para qualquer brincadeira ou confusão. Pedro nunca os tinha visto antes de tudo começar, nem sequer sabia a que ano pertenciam… O que lhe restava era fugir e esconder-se.
A sua irmã mais velha era a pessoa mais amorosa que conhecia. Filho de advogados, Pedro pouca confiança tinha com eles, raramente estavam em casa e quando estavam, era como se ele e a sua irmã fossem invisíveis. Pedro conhecia o amor materno através da sua irmã, sete anos mais velha do que ele, que o criara desde sempre.
Havia-lhe contado tudo, não guardava segredos da sua irmã. Naquele dia, pela primeira vez na sua vida a tinha visto chorar. Tinha conseguido acalma-la ao contar-lhe uma mentira inocente, que agora não se mostrava inofensiva, pois não tinha pedido ajuda aos professores por vergonha e nem aos seus amigos por medo. Mas não se arrependia, não ao ponto de se esconjurar.
Enquanto os seus amigos estivessem seguros, ele estaria bem.
- Encontrem-no de uma vez por todas! – ouviu gritar. – Quando o apanhar ele vai arrepender-se de ter fugido!
- Ele não está em lado nenhum! – exclamou o louro. – Ele é bom em fugir!
- Maldito! – maldiçoou o moreno, com os punhos fechados. – Eu vou mata-lo!
- Ele tem de estar em algum lugar! Procurem-no em cada canto, sei que ele está por perto – disse o gordo. – Se estás a ouvir-nos, é melhor aparecer! Vai ser muito pior quando te encontrar, seu esquelético de merda!
Pedro fechou os olhos e orou por ajuda. Não acreditava em um Deus, mas se realmente existisse, que o ajudasse, pois sabia que não seria como nas outras vezes. Desta vez, sairia muito mal. E ao abrir os olhos começou a chorar, um dos rapazes segurava uma navalha e brincava com ela como se pudesse apunhalar o ar.
A agonia apoderou-se da sua mente e do seu corpo, e quando sentiu uma mão no ombro esquerdo, deixou-se cair no chão. Curvado numa concha chorava em silêncio, pois sabia que quanto mais alto chorasse mais lhe bateriam, mas uma voz familiar chamou-o, alertando-o para a realidade e para longe daquele cubículo.
- Pedro, estás a ouvir-me? Vamos sair daqui!
Olhou em direção da voz e engoliu em seco. Os seus três amigos estavam ali com olhares inquietos. Atrás do contentor, tentavam ajuda-lo a levantar-se.
- Pedro, seu idiota, vamos sair daqui, antes que eles nos encontrem! – disse o André, na sua irritação habitual. – Acredita, se nos encontrarem, eu vou matar-te!
- Anda! Vamos sair deste lugar! Cheira mal… – disse o João, com um sorriso. – Vai ficar tudo bem, Pedro, nós estamos aqui!
Pedro olhou nos olhos de cada um dos seus amigos e depois desviou o olhar em direção daqueles que ainda o procuravam. Perguntou-se como é que os seus amigos o tinham encontrado, se sabiam o que estava a acontecer com ele, mas decidiu não perder mais tempo: olhou para os amigos e pegou a mão que lhe era estendida.
Com dificuldade levantou-se e mostrou um sorriso pequeno como agradecimento. Juntos, correram o mais rápido que puderam e por fim conseguiram despista-los.
- Porra! Nunca corri tanto na minha vida! Nem acredito que isto é culpa tua, Pedro! – gritou o André. – Se não tivesses deixado a biblioteca, nada disto teria acontecido, seu idiota!
- Eu… Eu apenas…
- O quê? Para lá com isso! Não vês que estás a piorar as coisas! Procuramos-te por muito tempo!
Pedro olhou para o amigo chocado.
- Se não nos contares, não saberemos como te ajudar – disse o Rui, sorrindo para o amigo. – Somos teus amigos e é para estes momentos que nós servimos. Não podes resolver tudo sozinho.
- O Rui tem razão – disse o João. – Nós estamos aqui para te ajudar!
Pedro olhou para cada um dos amigos e depois sorriu.
- Obrigado – disse, ao abraça-los afetuosamente.
FIM…
(Borboleta Voadora, Portugal, 20-10-2020)
Um abraço e até à próxima.
Borboleta Voadora
😊😊😊